07/03/2017

do ponto de partida.

As voltas que eu dou,  no fim das contas, são só minhas. Paro no mesmo lugar e o substrato que me aflige ainda é não saber. Não caber. Não pertencer ao lugar que me destinas. 
Não canso de dizer, que metades não me fazem. Não dou conta do sossego estático do seu sentir. 
Não me encaixo no lugar que não me cabe. E a esse respeito,  nada posso fazer. 
Se me cria expectativa, de imediato, nada me priva do fato de não bastar o não cumprir. 
De nada adianta concordar, afirmar, mensurar, contestar.. Não me alimento de verbo. A carne, insossa,  não me enche a alma.
A calma, fosca, me cega. Ensurdece o meu afeto e me repulsa. Expulsa!

24/11/2016

das elocubrações.

"Estou profunda,  como um poço sem fundo."
Ela disse: não esquece. Não deixa passar.
O meio do mundo tá no fundo.
Do que eu não digo,  e que se funde quando eu olho.
Sustenta. O fundo não chega. A fala não chega.
O mundo não cabe no fundo das coisas.
Que chegam e não passam.
Que fundam e começam na mesa da casa.
Na morte do nada. Na casa do fundo da gente.
Que não acumulam e não acomodam no resto de fundo que resta de tudo. Do todo do mundo do outro.
Da casa de gente que a gente não sente, não chega, não afunda na casa de gente que mora no fundo.
No poço profundo, que é casa de ninguém.
Sinto tão fundo que nem vejo onde.
Tão profundo,  feito mente de monge.
Tão fundo, que nem poço sem tampa.
Sem ver. Sem gente. Nem posso.
Profunda.
Acumulada. Acelerada. Desajustada.
Poça sem fundo.
Sendo a alma. Acumulada. Calada em desordem.
Cedendo.
Não sendo.

13/11/2016

da expectativa.

no meio do dia quente,
amargo, amarrotado no sofá desarrumado...
um filme.
um filme de domingo.
daqueles que a gente sabe [eu sei] que não vão ter o irritante final feliz de sempre.
certeiro!

o que me abateu, escorreu pelo rosto.
a sensação de refletir aquele homem.
a sensação de não desejar que fosse feliz.
de apenas entender, resignado, que não seria feliz.
"mas estava ali, e isso já não era o bastante?"

histórias se cruzavam todo o tempo, enquanto a gente se iludia pensando querer um final feliz.
mas quem quer "chegar lá"? o que é "chegar lá"? onde é "lá"?
lá é quando a gente acorda e percebe que a chegada é agora!
quando a gente acorda e se dá conta que o esperar não basta.
a gente acorda e vê que a garota desajustada que salva o chato da vida de merda, não vem.
que o certinho que equilibra a fuga desordenada da menina problemática, também não vem.
o chato, irritante, que vira melhor amigo sábio, já foi embora. tá cuidando da vida.

e a gente? a gente é a soma de todo o caos que não tem fim nos créditos.
a bagunça que não é graciosa. a tristeza que não é poética.
a melancolia que não é tema do Woody Allen.
o desassossego que não tem remédio.
o drama incompleto que não tem solução. como no filme de hoje.
ninguém saiu feliz. e ninguém o quis.
nem eu.

já era noite. enxuguei o rosto, e parei dois segundos.
"que bom, um final real pra a angústia."
incompleto. quieto e resignado.
chegou lá, Mr. Carter.
eu também.
enxuguei o rosto, e sorri.
dois segundos amarrotados
de um domingo amargo sem sofá.

10/10/2016

do sentir.

 Há poesia nas verdades que eu não digo. Meu silêncio é tão lírico quanto inatingível.  Não precisa haver beleza nas palavras. Mas exatidão.  Clareza que me veste. Me apetece. Não adormece. Estranheza que não mede.  Se admira e escurece.  

Nas poucas sílabas você encontra a resposta incompleta pra a minha agonia. Exaustiva entropia. Paradoxo cíclico. Sentir. Fluir. Rima não cabe em ti. Métrica a desiludir. Desconstruir. 
O labirinto morno esquecido.  Volta a me olhar em refúgio do desassossego.                     
Volto a erguer os muros, deixo a porta aberta e adormeço. Nas verdades que me diz e ainda não  mereço.             

01/10/2016

da distância

Que não cabe
Não sossega. Não negocia.
Me enche a alma na madrugada, sem previsão.
Me enche a cara e solta no vento.
Não sossego. Não afugento.
A calma da madrugada. Que enche a casa.
E não acomoda.
Os sons invadem os sentidos e só respirar já não basta!
Espera. Não cabe. Não negocia.
E eu não sos se go!
O vento solto é que invade a casa. Incomoda.
Afugenta. Tenta.
Invade e não dá trégua.
Até o fim. Que acomoda a calma pálida do ser comum.
E NÃO DÁ CONTA.
Tragando o ar, como o último dos sonhos soltos.
Não quer ir.
Mas a trégua é só por dentro.
Transcende e transpassa.
Acomoda e acalma. Solta o vento invasor e se atrapalha.
Dá conta. Quando atroplea!

30/09/2016

da noite.

Olha!
O escuro olha de volta.
Confunde. Atropela. Esmaga.
Pulsa o peito afogado em agonia.
Não olha!

Respira!
Cala! Se deixa levar!
Arrastada pela força que não conhece.
Descontrola!
Não olha!

Se abre!
Não mede o que deixa.
Tritura a carne. Desobedece.
Não sabe!
Move. Transfere.
Agora olha! Respira! Se abre!
Acorda!

25/09/2016

Da vertigem.

Do que te toca, me interessa o toque.
Não me apetece mensurar, planejar, elaborar.
Me cabe sentir. Não fazer sentido.
Dos dias mornos, me sobram metades. 
Junto pontas pra formar um novo.
"Não sei sentir pela metade", o tanto faz nunca me coube.
Não me olhe de lado, não me abrace de longe, não me beije com pressa.
Essa frieza é só por fora. 

Nos dias quentes, eu chego a derreter. Desfaleço e descabelo.
Mas não paro! Não me calo e não congelo.
Verbalizar é só pretexto pra falar de mim. E isso quase nunca me interessa também.
Minha garganta seca nessas horas.
Mas não me calo e não congelo!
Meu corpo se move solto, tagarelando nada de novo.
E do sentir que já me interessa, eu só toco o que me cabe.

Poros e pupila, dilatados, se entendem. 
Mas a voz. Não sai. Vai embora. Some! 
Derrete no gelo da noite que chega e me abraça.
E abraça inteira, de perto, sem pressa e com fome.

Vou embora. Inteira. Quente. "Em boa hora"!