28/08/2017

Escritos inacabados #1

De onde tiramos o afeto pras coisas que não nos aprisionam?
O que me interessa, me diz mais sobre o que eu não quero.
Tento, a todo custo, manter as angústias fora da rota. Longe do toque.
Não há consciência suficiente para emudecer o sentir. O grito fica.
Abafado. Calado. Forçado.
Mas fica!
O que me resta é saber como me ligo a ele. Por onde volto pra encontrar o sentir do qual me escondo?
Entorpecer não cabe mais. A apatia só me veste por fora. Mas não me cabe.
Aperta. Não sobra!
Porque eu sinto de longe? Porque, ainda assim, te quero por perto?
Porque sou eu? Porque é você?
Não sei, Chico.
O doce predileto, o açúcar, o afeto.
Não me prendem na casa.
Mas a casa tá presa em mim, virou carapaça.

31.01.2017

Escritos de estranheza acumulada #1


Tava aqui pensando...
O que sou eu agora? Quando eu cheguei (e parei) aqui?
Conversamos e eu te disse claramente, mas isso não faz diferença agora. Me aprisiono sempre no mesmo lugar seguro. Antes eu pensava que vinha pra cá me esconder. Sempre quis vir, e achei que fosse meu refúgio.
Mas sim. Meu refúgio me aprisionou. Não sei mais sentir.
Não sei pensar sobre o que eu sinto. Não sei dizer. Não sei O QUE dizer. Não agora.
Minha armadura não quer mais me deixar. Enquanto tento, agonizo.
Me debato por todos os lados. Meu corpo não responde. Permanece intacto, insosso.
INERTE!

Enquanto isso, eu grito por poder sentir. Só sentir.
Sem prever. Sem antecipar.
Agonizo, por sentir e não conseguir atravessar a nuvem cinza e sólida, só agonizo.
Não sei o caminho de volta. Nunca antes quis voltar.
Não consigo me soltar. Não consigo não pensar. Nunca antes quis não remediar.
"Muito sensata", vocês dizem.
Talvez eu seja mesmo. Inteireza em sensatez.
Eu chamo de anestesia.
A vida me engole, tritura, me empurra do penhasco. Eu sento na ponta do mundo, e só penso a respeito. Imóvel, Intocável, paralisada.
Agonizando por dentro.
Serena e "sensata" pro mundo.

Mas você já se perguntou de onde veio todo esse SUPOSTO saber acerca da dor e do existir dos outros?
Já parou pra pensar em quantas horas de sofrimento e de corpo dilacerado existem em cada frase de compreensão e assertividade?
Pois é. Agora, eu sou aqui.
Sentada num banquinho de madeira, os pés apoiados num tronco de árvore, meio torta, meio sonolenta. O sol esquenta minhas costas, ao mesmo tempo em que o vento me arrepia o anti-braço com um cuidado quase amoroso. Tenho a melhor vista dessas bandas da cidade bem à minha frente. 4 tons de azul, no mínimo, entre o mar e o céu claro (raridade nos últimos tempos). Abaixo do azul, alguns tons de verde em volta de tudo. Uma igrejinha lá no fundo e umas ruínas antigas no caminho.
Tudo muito aprazível aos olhos de qualquer pessoa.
Algumas pessoas fumam embaixo da sombra das árvores logo a frente.
Quanto a mim. Uma parte da paisagem, apenas. Uma música baixa saindo de dentro da bolsa suja. Invisível. Quase completamente imersa.
Expressão serena, talvez.
O que devem imaginar? Será que se perguntam o que eu tanto escrevo?
Mal sabem eles. Só agonizo.

Enquanto tudo se move lentamente e o meu cabelo dança no vento enquanto deixa passar uns raios que desenham no papel formas quase perfeitas. Imagino que, apenas, faço parte da paisagem, como sempre.
Mas ninguém sabe. Sou só agonia!
O que sinto na pele me atravessa tão forte, tão claro de quase cegar.
Penso sentir tudo tão intensamente, que chega a ser desperdício.
É isso! É isso que talvez eu seja agora.
Um acúmulo indiscriminado dos meus desejos desperdiçados em agonia.

- Chegaram pessoas estranhas e sentaram à minha volta -
Perto demais pra eu ignorar; longe demais pra eu conseguir me fazer presente de fato.
Eles estão confortáveis comigo aqui. Talvez eu possa voltar a fazer parte da paisagem, e compartilhar dos meus cinco minutos de agonia silenciosa, ou só da minha música baixa mesmo. Aparentemente um deles gostou de todas.

Agora, a luz que chega na folha através da sombra do meu cabelo é o que há de mais bonito nessa cena, me fez derramar uma lágrima tão calmamente, que até esqueci que agonizava. É o que suga minha atenção. Merecia uma foto, mas o que eu tenho visto é que as câmeras fazem cada dia menos justiça ao que os meus olhos capturam.
Talvez, mas só talvez, eu seja isso também. ESPECTADORA.
O que de algum modo me autoriza (convenientemente) a não entrar em contato diretamente com o que me toca. E enquanto assisto: Apenas agonizo.

É isso! É isso que sou agora.
A apática agonia espectadora daquilo que me atravessa.
ou,
A estranha encolhida de cabeça baixa,
escrevendo,
no banquinho de madeira,
com o sol no cabelo.


São Lázaro, 28.08.2017

07/03/2017

do ponto de partida.

As voltas que eu dou,  no fim das contas, são só minhas. Paro no mesmo lugar e o substrato que me aflige ainda é não saber. Não caber. Não pertencer ao lugar que me destinas. 
Não canso de dizer, que metades não me fazem. Não dou conta do sossego estático do seu sentir. 
Não me encaixo no lugar que não me cabe. E a esse respeito,  nada posso fazer. 
Se me cria expectativa, de imediato, nada me priva do fato de não bastar o não cumprir. 
De nada adianta concordar, afirmar, mensurar, contestar.. Não me alimento de verbo. A carne, insossa,  não me enche a alma.
A calma, fosca, me cega. Ensurdece o meu afeto e me repulsa. Expulsa!

24/11/2016

das elocubrações.

"Estou profunda,  como um poço sem fundo."
Ela disse: não esquece. Não deixa passar.
O meio do mundo tá no fundo.
Do que eu não digo,  e que se funde quando eu olho.
Sustenta. O fundo não chega. A fala não chega.
O mundo não cabe no fundo das coisas.
Que chegam e não passam.
Que fundam e começam na mesa da casa.
Na morte do nada. Na casa do fundo da gente.
Que não acumulam e não acomodam no resto de fundo que resta de tudo. Do todo do mundo do outro.
Da casa de gente que a gente não sente, não chega, não afunda na casa de gente que mora no fundo.
No poço profundo, que é casa de ninguém.
Sinto tão fundo que nem vejo onde.
Tão profundo,  feito mente de monge.
Tão fundo, que nem poço sem tampa.
Sem ver. Sem gente. Nem posso.
Profunda.
Acumulada. Acelerada. Desajustada.
Poça sem fundo.
Sendo a alma. Acumulada. Calada em desordem.
Cedendo.
Não sendo.

13/11/2016

da expectativa.

no meio do dia quente,
amargo, amarrotado no sofá desarrumado...
um filme.
um filme de domingo.
daqueles que a gente sabe [eu sei] que não vão ter o irritante final feliz de sempre.
certeiro!

o que me abateu, escorreu pelo rosto.
a sensação de refletir aquele homem.
a sensação de não desejar que fosse feliz.
de apenas entender, resignado, que não seria feliz.
"mas estava ali, e isso já não era o bastante?"

histórias se cruzavam todo o tempo, enquanto a gente se iludia pensando querer um final feliz.
mas quem quer "chegar lá"? o que é "chegar lá"? onde é "lá"?
lá é quando a gente acorda e percebe que a chegada é agora!
quando a gente acorda e se dá conta que o esperar não basta.
a gente acorda e vê que a garota desajustada que salva o chato da vida de merda, não vem.
que o certinho que equilibra a fuga desordenada da menina problemática, também não vem.
o chato, irritante, que vira melhor amigo sábio, já foi embora. tá cuidando da vida.

e a gente? a gente é a soma de todo o caos que não tem fim nos créditos.
a bagunça que não é graciosa. a tristeza que não é poética.
a melancolia que não é tema do Woody Allen.
o desassossego que não tem remédio.
o drama incompleto que não tem solução. como no filme de hoje.
ninguém saiu feliz. e ninguém o quis.
nem eu.

já era noite. enxuguei o rosto, e parei dois segundos.
"que bom, um final real pra a angústia."
incompleto. quieto e resignado.
chegou lá, Mr. Carter.
eu também.
enxuguei o rosto, e sorri.
dois segundos amarrotados
de um domingo amargo sem sofá.

10/10/2016

do sentir.

 Há poesia nas verdades que eu não digo. Meu silêncio é tão lírico quanto inatingível.  Não precisa haver beleza nas palavras. Mas exatidão.  Clareza que me veste. Me apetece. Não adormece. Estranheza que não mede.  Se admira e escurece.  

Nas poucas sílabas você encontra a resposta incompleta pra a minha agonia. Exaustiva entropia. Paradoxo cíclico. Sentir. Fluir. Rima não cabe em ti. Métrica a desiludir. Desconstruir. 
O labirinto morno esquecido.  Volta a me olhar em refúgio do desassossego.                     
Volto a erguer os muros, deixo a porta aberta e adormeço. Nas verdades que me diz e ainda não  mereço.             

01/10/2016

da distância

Que não cabe
Não sossega. Não negocia.
Me enche a alma na madrugada, sem previsão.
Me enche a cara e solta no vento.
Não sossego. Não afugento.
A calma da madrugada. Que enche a casa.
E não acomoda.
Os sons invadem os sentidos e só respirar já não basta!
Espera. Não cabe. Não negocia.
E eu não sos se go!
O vento solto é que invade a casa. Incomoda.
Afugenta. Tenta.
Invade e não dá trégua.
Até o fim. Que acomoda a calma pálida do ser comum.
E NÃO DÁ CONTA.
Tragando o ar, como o último dos sonhos soltos.
Não quer ir.
Mas a trégua é só por dentro.
Transcende e transpassa.
Acomoda e acalma. Solta o vento invasor e se atrapalha.
Dá conta. Quando atroplea!