12/04/2015

Da palavra.



A: “Razão ou emoção?”

B: “O importante é se sentir bem.”

       A gente fala sem querer, a maioria das coisas do dia a dia. Sem se dar conta do tamanho e direção que toma após sair da boca.


         Meus achismos diários são derramados sem qualquer cuidado, mas às vezes alguém devolve, e te faz perceber o quão certa você está da função que escolheu ter no mundo. E te faz enxergar:

A importância que tem seus cinco minutos de ouvido atento e sem julgamentos.
A responsabilidade de divagar sobre o que se pensa, a quem só precisava dessa meia dúzia de incertezas pra se sentir mais forte.
A gratidão de quem é transformado e fortalecido pelo resultado daquilo que diz.

E por fim (por hora), o cuidado necessário pra que a sua palavra não se torne a queda do outro, nem seu alicerce.  

23/02/2015

00:05

Porque é na madrugada que essas coisas aparecem.
Como quais? Todas elas.
A seca, a enchente, o escândalo, o castigo, o frescor.
Porque é nessas horas que os dedos estremecem, sofrem.
A polidez do dia ocioso se esconde atrás da tela do computador, lento e cheio de vírus.
Irritante!  Mas depois eu resolvo.
Porque na madrugada, tenho mais o que fazer.
Pensar demais, quase chorar, sorrir do nada, desenganar, entorpecer, quase morrer.
De pensar.
Ainda não me convenci. Do seu silêncio, da minha falta, do embaraçar.
Porque é nessas horas que tudo fica embaraçoso e interminável.
Pensar demais, querer demais, falar demais, achar demais, mas ter certeza. 
Depois, talvez.
O tempo realmente se arrasta no ócio da madrugada interminável, incontável, inabalável, incontestável. Testa de ferro. 
Pura desculpa pra o descontrole.
O descontrole dos dedos, dos nervos, do gosto, do novo.
T a q u i c a r d i a.
Assim, devagar, porém urgente. Dá pra entender?
Tentou sentir algo? Sentido algum? Eu sei!
Faltou o ar!
Cuspi tudo de uma vez, e só no fim me dei conta que prendia a respiração.
Mas é porque nessas horas não dá tempo de respirar.
Tudo é muito, é todo, é de uma vez só. E é sem fim.

Mas só porque a essa hora da madrugada, é que tudo some.

28/12/2014

A chave.



A calma.
O languido passar dos dedos, e o suspiro silencioso, quase doloroso.
O olho ávido pela carne. A língua seca do desejo.
Menos força, menos impacto, menos imediato.
Por hora, senta aqui, e melhora!

Respira: 1,       2,      3...
Assim mesmo, lento.. se demora.
Sente o vento na pele, a água, o cheiro..
Sente e espere que eu explico, mas não agora.
Agora, só melhora!

Caetane-se, mas por inteiro.
Senta aqui, e sente o impacto da leveza.
Seja, mereça, queira.
Com a força polida da calma.
Com a calma urgente de um arrepiar.

Verbalize o arrepio num sopro gelado.
Arraste-se sobre a pele, e descubra.
Descubra o cadeado, a chave.
Descubra o caminho dos poros, dos pelos!
A chave, na calma, chega devagar.
Mas por hora, senta aqui, olha, e melhora!

09/08/2014

Sobre acertar os ponteiros:

















-

Cuidei, sorri, andei, amei.
Amei o ponteiro parado,  andei pelo quarto até cansar, sorri sozinha com a música certa, e cuidei de mim.
Pensei em fazer muita coisa, em te falar tantas outras, te chamar pra sentar e me ouvir cantar rouca.
Mas eu cantei alto, deitada de cara pro céu, fazendo tudo que eu quis, de olho fechado.
Com ponteiro parado!

Deitei no tempo e adulei um tanto pra ele ficar parado, do meu lado.
O dia se arrastou, e ele fez o que tinha que ser feito.

Parou, me olhou e passou.

Andou pro outro lado, pra eu não esquecer de acordar.
Correu de olho fechado, pra eu aprender a cuidar.
Cuidou do que ficou, e levou o que pesou. Lavou a cara!

Passou pro meu lado quando comecei a aprender.
A cuidar, sorrir, andar e amar.
Sem saber.

04/08/2014

25/07/2014

De tudo, no mundo.


Na casa de dentro, sou tudo.
A medida é o que cala, não o que fala.
O silêncio é o meu grito,
E tudo o que me inquieta é o barulho do seu olho, no silêncio de sempre.
A casa de fora, é todo mundo.
Tudo, no nada que vem junto.
Em espera, a calma descansa. Toma seu rumo.
O olho dispara no canto, o que não sabe esconder.
As cores são mornas, mas só na casa de fora.
Eu sendo tudo, você todo mundo.

21/06/2014

Agnosia



Como lhe parece, olhar e não ver?
Como pareceria, se tudo lhe entorpecesse os sentidos de uma só vez?
Como lhe seria, o simples olhar nos olhos, enquanto as mãos seguram-se com força?
Se num instante tudo se apagasse.
Se o chão lhe tomasse a face e o mundo em volta virasse um borrão.
Se você fosse obrigado a, de olhos fechados, reconhecer as pessoas pelo que elas o fazem sentir.
Se enganar-se não fosse apenas uma desculpa.
Se o seu pulsar pudesse se fazer sentir na ponta dos dedos.
E se nada, nem ninguém, pudesse lhe tomar cada segundo de suor derramado no escuro.
Mas ainda assim, fosse escuro. Como você me veria?
Não ouvir, não falar, não olhar, não parecer com nada.
É isso que somos.
Borrões, sentidos, olhares de agnosia.